21 de fev de 2006

VOLTA AO LAR - fevereiro de 2006

Juro - Alexandre Abud

É sempre a mesma coisa. Entra ano, sai ano, troca o governo, muda a moeda, minha mulher me larga, outra aparece, digo que vou parar de fumar, não consigo, fumo mais, durmo menos, como pior, me esqueço das datas, me lembro das dívidas, me jogo no mundo, me perco na zona, me acho na cana, me derrubam do muro, me acordam a tapas e me dizem absurdos. Um dia volto pra casa, juro que volto.

20 de fev de 2006

Só com empregada



Sair de casa é bom. Voltar é melhor ainda. Sair significa que a vida impele por algum motivo, seja trabalho, passeio ou vontade de ver gente. Bater perna ou comprar aspirina, tanto faz.
Voltar é melhor. É ter endereço, porto seguro. Poder deixar os sapatos poeirentos na entrada e esquecer de guardá-los. Voltar é muito bom...desde que se tenha empregada em casa!
Abrir a porta e topar com uma sala bagunçada, copos no aparador, louça na pia, cama desarrumada e cesto de lavanderia abarrotado enlouquece qualquer vivente.

Digamos que você seja do tipo virginiana, organizada até o limite do irritante, e só sai de casa com tudo em ordem, água pro cachorro e pras violetas, louças secas e guardadas, como faz com aquele convite de última hora? Recusa e conta a verdade, arrancando os cabelos em cima da pia, ou tenta adiar por tempo suficiente para passar o aspirador? É o aspirador ou o secador, querida. Hoje ninguém tem tanta paciência, não.

Diz o bom senso que se você não for uma virginiana de carteirinha vai optar pelo banho rápido e o secador, deixando para trás as ruínas da sua Machu Pichu particular.
Nesse caso é melhor que o programa seja um sucesso completo. Cem por cento de aproveitamento. Barba, cabelo e bigode. Algo tão encantador que a faça voltar ao lar dançando nas nuvens para minimizar a visão do inferno e suavizar a queda após o tropeção nos sapatos largados na porta. Caso contrário, deixe sempre o número de um CVV ao lado do telefone.

Agora, voltar pra casa, abrir a porta e sentir aquele aroma de sândalo, ver o clarão da janela refletido no piso brilhante, os livros e almofadas no lugar, as toalhas dobradinhas sobre o gabinete do banheiro e, com um pouco de sorte, um bilhete sobre a mesa: "acertei a receita de torta diet que a senhora pediu. Está na geladeira. Até amanhã." não tem preço. Ou melhor, tem preço, INSS, décimo terceiro e férias. Mas pelo que vale, está bem pago.

Banana de Pijama




Revisita


“Era uma casa grande, de portão branco. Uma que tinha um jambeiro na frente. A molecada derrubava jambo na pedrada. Minha mãe ficava danada. Uma que parecia sempre ter cheiro de grama molhada. Vivia de cigarra quebrada, a gente tinha que bater palmas na porta chamando, "ô de casa, ô de casa”. De manhã bem cedinho, o sol se enfiava por baixo da minha cortina e o cheiro do café de Elizete vinha devagarinho pra dentro de meu nariz, só você vendo. Ninguém entendia como é que eu nunca acordava de mau-humor. Mas me diz, mau-humor com o café de Elizete? Com o chiado gostoso da vassoura da minha mãe varrendo o alpendre? Espere aí, moço, por favor, faça um esforço. Olhe só: era na rua da bodega de Seu Naldo. Eu mais meus irmãos numa briga danada quando lá na casa, mamãe precisava de linha, de agulha, de farinha. Porque sempre sobrava um troquinho, né? Já notou como dinheiro em mão de menino rende? Aí pronto, a gente voltava transbordando de chiclete, confeito, o diabo! Cada mão assim ó, cheia! E ainda apostando corrida. Na época podia, nera igual hoje não. Tinha tão pouco carro na rua. Lembra? A gente bebia água de rio, moço, andava de pé no chão, corria de assombração, via tão pouca televisão...Lembra não? Ninguém morria, ninguém era seqüestrado, e se pegava doença, era de criança...Pertinho da escola, moço! A gente amarrava os livros numa tira de couro. A professora era braba comigo porque eu nunca prestava atenção. Nem podia! Prestar atenção à conta, a sinal de mais e menos, quando tinha um ninho de bem-te-vi novinho, novinho, numa árvore bem na frente? Quando uma manga daquelas bem maduras se pendurava soltinha num galho? Vá agora não, meu amigo, por favor. Eu acordei de madrugada hoje. Agoniado, com uma coisa aqui no meu peito. Pensei em ligar pro médico. Mas a medicina dele ia resolver nada... Ainda se fosse um jambo, uma manga, caída na pedrada. Ah, moço, ainda se fosse uma xícara do café de Elizete! Tome outra. Por minha conta. Lembrou? Isso, moço. Essa, moço. Grande, moço. Grande moço! Acordei com uma agonia no peito, entrei no carro e me danei pra cá. Só você vendo. Mas vamo, moço. Me leve. Porque o meu mau é falta de lá. É falta de lar...
(...)
É o quê? Pode ser não, moço. Era uma grande, de portão branco, com cheiro de grama molhada e zuada de vassoura de piaçava. É não, moço. Era não, moço. Derrubada, moço? Por quê? Por quem? E faz tempo?...Eu sei.
(...)
A gente só pegava era doença de criança, moço. E bebia água de rio. Tome mais uma. Tome mais duas. Uma por mim, que eu já vou me embora. Sei não. Tirar esse sapato. Tomar banho de rio. Correr de assombração.
(...)
Voltar? Ah, meu Deus. Só rindo, né? Voltar pra onde, moço?”
Ben Iamin

19 de fev de 2006

Rio, 23 de abril de 19equalquercoisa


Saltou do metrô na Presidente Vargas, um calor da porra e já eram 5 horas da tarde. A multidão ocupava quase todo o Campo de Sant’Anna como se esperasse ver Deodoro da Fonseca proclamando a República. E todo mundo de vermelho, parecia o comício das Diretas Já onde vira o Dr. Ulysses, o Brizola, o Lula. Merda de vida filha da puta, morrem os decentes, vencem os calhordas. Sapatos brancos, calça branca, camisa vermelha, um ramalhete de palmas de Santa Rita nos braços, um caixa de velas no saco de plástico. Uma corrente dourada e a medalha. Um anel no dedo mindinho de unha grande. Uma pulseira de chapinha, de um lado o seu nome: Jorge dos Santos. Do outro lado, o nome do santo: Jorge.

Já era noite quando se ajoelhou ao pé do altar, depositou as flores, acendeu as velas e pediu: São Jorge, meu pai, me livra dela que ta arruinando a minha vida, a desinfeliz já desgraçou meu casamento, já me fez perder três empregos e me dá essa tremedeira toda quando lembro dela, tão branquinha, tão cheirosa. Tira essa praga da minha vida, meu Santinho, que eu prometo que pro ano que vem te dou um cavalo branco.

E, como se espera que aconteça, viu o santo lhe dar uma piscadela.

Em maio acertou na mega sena e botou banca de bicho. Em junho conheceu Marina, filha de outro banqueiro. Em julho fez lua de mel nos cassinos de Mar Del Plata. Em agosto foi a Brasília abraçar uns deputados. Em setembro mandou os filhos do primeiro casamento estudarem na Suíça. Em outubro fez campanha pra vereador. Em novembro ganhou a eleição. Em dezembro passou o reveillon na Broadway. Em janeiro foi eleito presidente da LIESA.Em fevereiro sua escola ganhou o carnaval. Em março enfartou, mas sobreviveu.
Todo um ano se passou e ele nunca mais lembrara dela. São Jorge fizera um milagre.

E no outro 23 de abril entrou, impávido colosso, todo de branco, no boteco que dera de presente pra um compadre. Sobre o balcão a imagem do santo onde depositou, solene, uma garrafa de White Horse.

Cumprida a promessa, voltou pra ela.

Caiu de boca na cachaça.

Ro Druhens



Amor, amores



Quando ele olhava para mim, eu desviava os olhos. Por medo de que visse nos meus a entrega absoluta, o sentimento descaradamente exposto. E assim, ele nunca soube da paixão desesperada que nutria . Mas eu só tinha 13 anos e todos o tempo do mundo para aprender a lidar com o que sentia. E ele sumiu na poeira da minha rua, virou retrato na minha memória.


Quando ele perguntou:”Vamos namorar? Só que você tem de desistir da faculdade, mulher minha não vai trabalhar”, não discuti, não tentei argumentar. Apenas disse “não”, e fui chorar escondida a desilusão do segundo amor. Mas eu só tinha 17, ia fazer 18, e muito tempo pela frente para encontrar alguém que não me tolhesse.

Quando ele me beijou e disse que se sentia confuso, eu disse displicentemente que não se preocupasse, que aquilo era apenas um impulso ditado pelo vinho. Nenhuma palavra sobre a delícia daqueles segundos, ou sobre o turbilhão no meu peito. E assim ele também acabou se perdendo no tempo. Mas aos 23, a vida está em plena florescência, há tempo de sobra para procurar o homem certo, um que não tenha dúvidas e complicações.

Quando ele me disse que precisava de ajuda, porque tinha cedido a algumas aventuras fáceis, mesmo estando certo de que me amava, não derramei uma lágrima, não o chamei de cachorro, não me descabelei e nem disse que o queria só para mim. Racionalmente, saquei o telefone de um bom psiquiatra para que fosse estudar a si mesmo e seus motivos. Matei-o dentro de mim e
ele nunca soube que virou zumbi. Mas aos 34, estamos apenas começando a conhecer a nós mesmos e aos outros, o futuro é um horizonte ainda longínquo, onde o amor incondicional nos espera.

Quando ele me questionou: “Você deixaria tudo e viria comigo?”, hesitei. E hesitei por tanto tempo que ele teve tempo de encontrar alguém mais decidido. Me consolei, pensando que aos 45 a gente não deve mesmo acreditar em amor eterno, mas que sempre é tempo de aparecer alguém “adequado”.


Recentemente, e alguns “eles” depois, me dou conta de que aos 56, continuo na mesma posição na janela, vendo o amor passar por mim com todas as suas faces, suas imperfeições, grandezas, sutilezas, dificuldades, beleza, mesquinharia, armadilhas, surpresas, num desfile interminável de emoções que não vivi, porque o imaginava único, completo, definido. Vejo-o rodopiando,
levado pelo redemoinho do tempo, e tenho vontade de gritar: “Volta, meu amor”. Qualquer um deles.

Ou, quem sabe, talvez ainda haja tempo para um novo?

Lilly Rowan

O estranho


Eu me chamo Moacyr de Capri. Meu pai pegou esse sobrenome emprestado, na falta de outro, do nome do cigarro que ele fumava quando conheceu a mãe.


Éramos em dois irmãos: Seth, o primogênito, e eu. O Seth era um menino bonito, cabelo mais liso que o meu, linha do nariz mais suave, tinha dentes brancos e uma voz macia que desde cedo encantou as meninas. Já eu era o contrário: sempre fui feio, tinha o cabelo ruim do pai, o pé chato da família da mãe e não gostava de ficar perto do Seth, que sempre que podia implicava com o tamanho do meu nariz.


Quando Seth ganhou mundo, dizendo que ia estudar na capital, eu tinha onze anos, sete a menos que ele, e passei a ficar tomando conta da mãe e da mercearia quando papai viajava a trabalho, o que não era exceção. Não posso afirmar com absoluta honestidade que papai tenha sido uma figura masculina presente em minha infância – muito menos que eu não tenha buscado em outros homens da cidade um substituto, um pai postiço para as longas ausências de papai: desde o padre até o meu padrinho de batismo, desde o nosso vizinho com óculos de fundo de garrafa e cara de poucos amigos até mesmo o seu Inocêncio, dono do único puteiro da cidade.


O tempo foi passando e eu fui crescendo. Aos poucos, passei a desejar as meninas que trabalhavam no puteiro do seu Inocêncio, chegando ao cúmulo, graças a um bando de hormônios incendiários que viviam dentro de mim, a surrupiar todo mês dez por cento da féria da mercearia para financiar meus desafogos sexuais com aquelas moças, que não se importavam nem com a minha feiúra nem com a mistura de cheiro de alho e de paio que eu exalava. Afinal, puta não tem que atentar para a aparência de homem nenhum.


Desde sua partida, Seth enviara seis cartas: três no primeiro ano, duas no segundo e até agora, finzinho de novembro do terceiro ano, só tinha chegado uma, na qual ele juntou uma foto, minha mãe até mandou fazer uma moldura para essa fotografia que foi pendurada bem no meio da grande parede da sala, em que ele aparecia de braços abertos como um Jesus Cristo, usando uma japona que parecia da Marinha, tinha deixado crescer uma barba grossa e contava que ele estava ganhando um bom dinheiro construindo casas em São Paulo, que tinha cursado escola técnica e sabia fazer aqueles cálculos complicados que todo técnico em edificações era obrigado a aprender. Que estava economizando para comprar um automóvel e que em pouco tempo voltaria para casa com o rabo forrado de dinheiro e um carro zero, com cheiro de novo e tudo. É bem verdade que as seis cartas mostravam um progresso contínuo do meu mano, mas eu custei a acreditar que ele conseguiria comprar um carro novo. Entretanto, se eu não acreditasse no meu mano, eu pensava, acreditaria em quem mais nesse mundo de Deus?


Papai não chegou a ler esta última carta. De minha parte, eu já estava acostumado a meu pai estar sempre longe, viajando, diziam as más línguas que ele tinha outra família numa cidade a cem quilômetros, que a outra mulher dele era galega, tinha olhos azuis e peito pequeno, daqueles durinhos. Só sei que não senti sua falta quando ele enfiou a Brasília vermelha dele, com ele dentro, embaixo de um caminhão que carregava uns tambores, mal vedados, cheios de um fertilizante verde. A corda que amarrava os tambores arrebentou, os tambores caíram em cascata e quebraram o vidro dianteiro da Brasília. Deve ter ficado curiosa a mistura do verde do fertilizante com o vermelho da Brasília do pai. O médico que fez a autópsia não soube ou, por misericórdia, não quis me informar se o pai tinha morrido intoxicado ou afogado no fertilizante e eu até hoje me lembro que ninguém conseguia ficar muito tempo dentro da capela onde meu pai foi velado, por causa do cheiro forte que ardia as narinas e avermelhava os olhos. Eu não conseguia olhar pro pai no caixão e não ter ganas de dar gargalhadas: sempre queimado de sol, o pai ficou estranho porque o verde do fertilizante parece que entranhou na pele dele, então eu ficava imaginando e rindo, pensando que aquele corpo não devia ser do pai, mas de um marciano que tinha roubado a Brasília dele e morrido afogado com aquela nojeira verde. Tinha gente que, eu sabia, enxugava os olhos, mas não era de saudade do pai, mas por causa do cheiro de fertilizante agulhando nos olhos. Ou, como eu, usavam o lenço para tentar esconder a risada, sei eu.


Minha mãe, que era tão alegre, mesmo vivendo com todas as dificuldades que sempre viveu ao lado do pai, derreou de vez. Foi murchando, andava de cabeça baixa, vivia pendurada pelas janelas engrossando a ponta do cotovelo, às vezes encompridava o olhar para a fotografia do mano Seth com os braços abertos que pendia na parede da sala, como se estivesse buscando ajuda no filho mais velho. Talvez a mãe esperasse que o pai voltasse dos mortos, talvez esperasse que um anjo o trouxesse de volta dizendo desculpa, dona, eu levei seu marido por engano, não era a hora dele não, tá aqui o seu homem de volta, diria o anjo já batendo as asas, com medo de levar uma vassourada da mãe. Sei lá. Só sei que ela derreou. Eu tentei por diversas vezes reler a carta do mano para ela com o intuito de animá-la, de tirá-la daquele derreamento de pedra, ele volta logo, mãe, eu dizia, e volta rico e com carro novo, mas ela não me ouvia, estava em outro lugar onde eu não conseguia chegar, olho perdido no pretume de uma noite que vivia dentro dela desde então.


Com a morte do pai, minha vida também mudou. Eu era então o homem da casa e resolvi largar a escola, afinal não teria tempo para estudar e tomar conta da mercearia. A mãe estava naquele resguardo de viúvez recém e não tinha mais vida, parecia, nem vontade para nada.
A mãe caiu doente uma semana antes de eu fazer quinze anos. Tem gente que o corpo adoece, mas a mãe adoeceu de alma, de saudade, de tristeza, de pretume nos olhos. No início, ela só estava ausente, meio fraca, mas ainda me perguntava a respeito da mercearia e do mano Seth, mas com o passar dos meses, ela foi perdendo de todo o interesse. Não me perguntava mais nada, nem do Seth pedia notícias, e foi assim que aquele ano terminou.


Quase um ano depois do enterro do pai, eu fiquei rolando na cama até tarde da noite, sem conseguir dormir. Quando consegui, sonhei com o pai e com o Seth. Os dois caminhavam numa estrada ladeada de flores amarelas e cantavam uma música do Roberto Carlos. No dia sequinte, chegou uma carta de São Paulo. Fiquei sobressaltado quando li o nome que estava no remetente: Ana Maria de Souza Capri. Era o meu sobrenome! Será que essa tal de Ana era minha irmã, filha do pai com a galega? Me escondi da mãe e abri a carta. A Ana não era minha irmã, era a mulher do Seth. Meu mano tinha casado e não tinha avisado! Na carta, Ana contou que estava passando dificuldades, que pedreiro já não ganhava bem e que Seth tinha sido preso por ter esfaqueado um companheiro de obra que vivia ganhando dele na porrinha e implicou um pouco além do limite depois de uma noitada de cachaça e inveja. Foi a maior decepção da minha vida, descobrir que meu irmão não estava bem, que ele tinha mentido para mim.


Rasguei a carta e escrevi outra. Nela, o mano dizia que estava tudo bem e que voltaria em breve. Um beijo saudoso do Seth. Escrevi a carta com lágrimas nos olhos, eu chorava e não entendia porque chorava. Ainda estava enxugando as lágrimas quando minha mãe me chamou no quarto dela com aquela vogal longa do Moacyyyyyyyyyr. Saí correndo com medo da mãe estar passando mal, mas ela só estava querendo saber se era carta do Seth que tinha chegado. Respondi que sim, que ele prometia voltar no fim do mês, e li a carta que eu tinha acabado de escrever. Nos olhos da mãe parecia que tinha nascido um rio de sol. O pretume abandonou sua alma dela. No dia seguinte, a mãe levantou-se da cama na maior ligeireza, como se não tivesse ficado entrevada por quase seis meses ali, e foi preparar rapadura e goiabada para o Seth levar no retorno para São Paulo. Ela só ficou um pouco triste quando eu contei que o Seth tinha se casado e que a mulher dele se chamava Ana. Para se certificar, a mãe pediu para ler a carta, mas seus olhos já não viam as letras, de forma que tanto fazia se eu tinha ou não reescrito a carta, uma vez que o que eu inventasse seria a mais lídima verdade para a minha mãe. Isso, como eu disse, não impediu que ela rebrilhasse de felicidade e assim ficou até o fim do mês, que chegou sem o Seth chegar. Ela me perguntava o que tinha acontecido, se o Seth tinha mandado outra carta ou telegrama, o que tinha acontecido, ela repetia nervosa, e retorcia o pano de pratos, com o meu filho?, e eu respondia, percebendo que o pretume devagar ia se imiscuindo novamente pelas frestas do olho dela, que talvez Seth estivesse com alguma complicação com a firma de construção dele.


Na primeira semana do mês seguinte, com duas caixas forradas de doces que preparara pro Seth entulhando a sala, a mãe pediu que eu fechasse a mercearia por algum tempo e fosse para São Paulo ver o que tinha acontecido com Seth. Mesmo sem saber como resolveria aquela situação, eu aceitei de imediato, pois de novo ela vinha se tornando aquela pessoa ensimesmada, esbarrando pelos corredores, olhar perdido. Que situação! O que eu poderia fazer? Não sou Deus para trazer Seth de volta do reino dos mortos! Foi com um aperto no coração de não saber como poderia sair dessa sinuca que eu embarquei no primeiro ônibus para São Paulo. Eu tinha guardado algum dinheiro que talvez desse para uns três meses. Peguei o essencial para pagar minhas despesas e para um auxílio para a Ana e deixei o resto com a mãe.


Em São Paulo, procurei pelo endereço que constava na carta que Ana enviara para contar da morte de meu irmão. Descobri que ela morava numa casa miúda feita de tábuas de construção, um aperto dos diabos. À volta, havia dezenas de casas absolutamente iguais e eu fiquei me perguntando que artimanhas eu teria que inventar para achar o caminho de volta, caso morasse ali.


Percebi em Ana uma barriga de prenha. Ana era uma mulher bonita e pequena, tinha um olhar de agulha que não desgrudava do meu olho e cheirava como cheiravam as putas do Inocêncio. Quando veio trazer a bandeja com o café, ela me perguntou como a mãe tinha recebido a notícia da morte do Seth e eu estranhei, o Seth não está preso, perguntei, e a Ana me respondeu que na verdade Seth tinha morrido esfaqueado pelo companheiro de obra, depois de uma discussão provocada por uma partida de porrinha, que não tinha contado isso com medo da mãe ler a carta e ter um troço. Foi nesse momento que eu contei da mentira que inventara para a mãe, sem tirar os olhos do decote dela que, quando se abaixava para servir mais café ou colocar o açúcar, desvendava os peitos de mamilos escuros e o início do redondo da barriga. Ficamos de pensar o que fazer a respeito do assunto. Ela enfim me disse que estava grávida de sete meses, que o meu sobrinho estava quase para nascer. Desnecessário dizer que terminei por ficar ali seis semanas e que, com o passar do tempo, as saudades dela de Seth e as minhas saudades das meninas do Inocêncio, terminamos nos deitando juntos. No início, achei estranho fornicar com mulher grávida, mas depois me acostumei. Gostei da sensação de ter uma mulher deitada no meu ombro sem ficar preocupada se eu tinha de fato a paga que tinha sido tratada. Na primeira vez que isso aconteceu, eu chorei copiosamente. A Ana não entendeu e me fez dormir aconchegado naqueles peitos cheios de grávida. Deixa a barba crescer, foi a última frase de Ana que eu escutei naquela noite, antes de dormir e sonhar com o pai passeando com Seth por uma estrada ladeada de flores vermelhas.


Com o tempo, a barriga de Ana foi aumentando, ela foi ficando mais incomodada com o peso, a vontade dela de se deitar comigo foi diminuindo e eu me dividia preocupado com a Ana que estava quase parindo e com a mãe sozinha naquele finzão de mundo. Numa manhã em que caía uma chuva quase sólida sobre São Paulo, decidi voltar, mesmo ainda não sabendo como faria para contar para a mãe a verdade sobre Seth, que agora estava mais difícil dela compreender, pois além de descobrir que o filho primogênito tinha morrido, também saberia que um irmão tinha dormido com a mulher do outro irmão, que ainda não estava de todo comido pelos bichos.
Antes de entrar no ônibus, comprei uma garrafa de cachaça de um ambulante nas cercanias da rodoviária, que eu esvaziei antes do ônibus sair de São Paulo. Tonto, dormi pesado e só fui acordar com o motorista me sacudindo e dizendo já chegamos.


Faziam quase dois meses que eu tinha ido buscar meu irmão morto e a cidade onde eu tinha passado toda a minha vida agora parecia estranha para mim. Eu estava barbudo e cansado. Entre uma lufada e outra de vento, no caminho para casa, eu conseguia ainda sentir o cheiro de Ana misturado com o meu. Eu tinha ido à São Paulo buscar um irmão que nunca poderia ser encontrado. Encontrei Ana e, de quebra, descobri mais coisa: eu estava apaixonado. Juro por tudo que de sagrado há nesta vida.


E foi com alguma coragem e com essa certeza que eu entrei no quarto da mãe, abri os braços feito um Jesus Cristo e, surpreso por perceber que estava usando a japona do mano Seth, escutei o grito triunfante de minha mãe, feliz por seu primogênito enfim ter voltado para casa.

Grimble

imagem: Basquiat