12 de mar de 2007

Relações...quem entende?


Bianca Accioly


- Esse acordo não vai dar certo!
- Mas pai...
- Esse acordo não vai dar certo!- fala num tom mais alto.
- Você acabou de falar...
- Tente não dizer isso a sua mãe.
- Como assim? Foi ela que deu a idéia.
- Sim, mas quando for falar com ela, tente não contar tudo o que discutimos hoje.
- Como assim? Eu só repeti o que ela falou.
- Eu sei, eu sei, mas sua mãe tem outra forma de pensar, ela pode entender errado e ficar louca, você sabe?
- Sei, sei, ela falou a mesma coisa do senhor. Disse até pra eu te falar devagar, assim bem fácil de você entender, sem te contrariar.

Silêncio.

- Está vendo? eu te disse pra não comentar com ela. – grita apontando o dedo ao rapaz.
- Mas a idéia foi dela! – grita o garoto.
- Está vendo? Ela já te colocou contra mim, eu disse que ela não iria me entender.
- Mas ela nem...
- Eu sabia, eu sabia que ela iria te colocar contra mim. Aposto que minha opção não foi o suficiente para ela, não é mesmo? – faz uma cara de nojo.
- Mas ela nem...
- Agora até você me contesta...
- Mas ela...- grita o garoto.
- Isso, isso, fica louco mesmo, grita mesmo. Será possível? Deve ter herdado essa mania da família da sua mãe.
- Você é que está me deixando louco...
- Viu, viu, viu só? É assim que ela fala, você puxou a ela. Daqui a pouco vai sair atacando coisas na parede também? – grita levando as mãos pro alto.

Silêncio.

- Vou embora, pai!- levanta rápido e se dirige à porta.
- Por que?- diz mais calmo.
- Esse acordo não vai dar certo!
- Ei, essa frase é minha. Não tente dar um de sério depois de me deixar louco.
- Essa frase é da mamãe.
- Não tente me confundir, fala pra louca da sua mãe que eu não aceito essa idéia, que não vai dar certo.
- Foi o que você disse.
- Você está me deixando louco.
- Foi o que eu disse.- saindo da sala.
- Saia daqui, seu louco! Louco! – grita sem parar e joga um vaso grande na parede.

6 de mar de 2007

Preciso virar vento




Replicante Raquel

O vento Sul me acordou com sinos
Varria a rua, fazia folia
O vento Sul é alegre
Acho que sou sim do Vento Sul

Desarrumou plantas lá fora
Puxou folhas, levantou cortinas
Jogou a manhã prá dentro do quarto
Queria brincar, brinquei com ele
O vento Sul é criança
Acho que sou sim do Vento Sul

Sei quando ele vem, ele é assim
Nem preciso olhar prá que lado voam folhas
Já de noite a alma dele se formando me tira a roupa
Quer me ensinar a voar, a ficar leve
Qualquer dia o Vento Sul vem e vai me levar com ele

O Vento Sul é forte
Gosto quando ele vem e me bate.
Mulher de malandro não. Filha de Deus.
Folha do Vento Sul
.
imagem: O Beijo. Homem-Aranha e Mary Jane ( atores Tobey Maguire e Kirsten Dunst).Foto-divulgação.Spider-Man,EUA,Sam Raimi,2002.


31 de jan de 2007

Tempos Modernos


Bruno Accioly

"Três dias depois, quando a raiva e a humilhação haviam passado, ela resolveu procurá-lo:

- Posso saber por que não me procurou?
- Espero que me perdoe, mas não vamos mais poder nos ver.
- Como?
- Você não vai acreditar, mas me apaixonei pela minha mulher.
- De que droga está falando?
- Sei que parece um absurdo, mas como você não me respondeu aquele dia, resolvi voltar pra casa. Qual a minha surpresa quando fui recepcionado pela minha esposa, coberta apenas por um véu semi-transparente, deitada no final de um corredor delicadamente criado por centenas de velas brancas. Confesso que cheguei a ter medo inicialmente. Achei que fosse algum culto satânico. Mas ela me interrompeu o pensamento e me jogou contra a parede, depois sobre o sofá e... e... não saimos do quarto por 3 dias. Seguidos! Estamos curtindo algo que não tivemos nem em nossa lua de mel!!
- Mas que merda é essa? E como assim ‘não te respondi aquele dia’ ??
- Olha, a culpa não é sua. Acho que foi sorte.... ou azar, sei lá. Provavelmente isso não teria acontecido caso você tivesse respondido a minha mensagem.
- Mas que mensagem??
- Como assim ‘que mensagem’?? A que te enviei no celular... deixa eu ver... aqui! Olha! ‘Parece uma eternidade que não nos vemos nem nos falamos. Talvez tenha sido culpa minha, mas saiba que não paro de pensar um você minuto algum do meu dia. Te quero, te amo e serei eternamente seu. Não vejo a hora de te ver hoje!’
- Jamais recebi essa mensagem.
- Recebeu sim... até guardei a confirmação... aqui... entro aqui... olha... e, epa!
- ... que foi?
- Realmente. Você não recebeu a mensagem.
- Não falei?
- Mas eu a enviei, como te mostrei. E ela foi recebida.
- Eu não recebi.
- É. Não... descobri isso agora.... bom, como eu disse, acho que foi sorte.
- Não pra mim.
- Me desculpe. Até.

Nada de Novo Denovo


Pedro Rodrigues

O que há de novo?
Pergunta capisciosa... Ou não é?
"Os Estados Unidos invadiram o Iraque". Denovo? Sim, mas essa é velha, nos tempos de jornalismo ao vivo, ontem já é história.
A sabedoria popular diz na bela canção; "É você que ama o passado e que não vê, que o novo sempre vem." Denovo. Que o novo é só o passado de amanhã. Tome por base o pacote de pãezinhos, recém saídos e quentinhos...
"Nasceu meu filho", "Morreu minha sogra". Para um colega de cacheta pode ser novidade anos depois do ocorrido. Mas, para minha esposa, não teria sentido dar a notícia mesmo (ou principalmente) na hora em que estivesse acontecendo; "O bebê vai nascer querida!" "Eu sei, filhadaputa, por que buceta você acha que ele tá passando?!" (cara feia nem sempre é fome...)
De uma perspectiva evolucionista grande novidade é o dedão, mas eu não diria a meu patrão, "Bom dia, tenho um dedão em oposição." Oposição, aliás novidade, agora é a direita. Novamente.
Novidade, para um cristão, é a reencarnação. Mas para um budista não. Para Severino do Espigão é andar de avião, mas não para Santos Dumont. Que, mais dia menos dia, logo encarna denovo, mesmo sem ser budista.
O que há de novo?
Socialmente, o casamento homossexual. Historicamente, o voto feminino. Geograficamente, todo o leste europeu. Geologicamente, a separação de Pangea.
Do ponto de vista do Deus que criou nosso mundo, pode-se pensar "As águas já baixaram denovo".
Do ponto de vista do Deus que criou todo este Universo, poderia dizer "Apaguei uma estrela".
Do ponto de vista do Deus que criou este Deus; "Fiz um Big-Bang, ainda não terminou de crescer..."
Mas estes todos talvez sejam nossos pontos de vista, e é novidade pensar assim. Pelo menos sem ir para a fogueira...
Também não se fazem mais novos como antigamente, e nada mais velho que esta fixação toda pelo novo.

E então, o que há. Denovo?

Novo


Fê Farah

Algo me aconteceu
Encontrei o passado
Escondido
Sempre esteve tatuado
Sempre mais
Nunca o que passou
Sapo nunca anda para trás
O passado traz
Me trouxe hoje
A possibilidade de ser novo amanha
O passado que vi hoje continua amanha?
Ou foi um presente do presente?
Escrevo um livro
Com recortes de mim
Comigo recortado
você na frente
Sempre no foco
Desfocando minhas novidades
Temperando minhas vontades
Desviando meu futuro
Me dando de presente o passado
Toda vez que faz me lembrar
Que amei e fui amado
Platonicamente amei
Ironicamente amado
Tudo isso é novo
E por isso quero
Quero sempre
Quero novo
Quero mais
Quero que me dê novo
Quero de novo

9 de jan de 2007

Em Amor Tornada


Replicante Raquel

Corri tanto atrás do amor
Que assustei o amor
Ah que cansei o amor

O amor viu que eu tinha armas
Pensou que eu fosse da polícia
Esperto o amor se disfarçou

Viu o amor que eu tinha capa
Achou que era o homem do saco
Menino o amor, ai, se trancou.
Viu aberta o amor a boca de gula
Tudo ele calmo brotava ao seu tempo
Acuado o amor se recusou.
Fechou-se em copas, fechou-me a cara
E ao passar por mim na rua
pro outro lado o amor olhou.

Sem seus olhos prá olhar, sem amor, de fome,
pus-me a odiar tão tenazmente o amor!
Mas quando minguei e morri foi só o amor
Só o amor me socorreu.
Vidente viu que eu era tola
Bondoso se compadeceu
Lavou meus ossos e em fogo brando
Em seu coração de amor intenso
O mago amor por amor me desmanchou

Mas não é só minha estratégia
Não é só compreensão.
Mortalha do amor, virei seu berço
Sem braços pra agarrar o amor tomou-me o amor
.
imagem: Kuntuzangpo. Katsel Dharma Center: http://www.electrichalo.org/prayerofkuntuzangpo.html

18 de out de 2006

Tv por Assinatura


Ricardo Mello


Passou a tarde vendo televisao.

No auge dos seus 11 anos os canais em ingles e os desenhos pareciam chatos.

Escolheu o canal de filmes nacionais.

Ao final da tarde a mae gritou que ja' era hora de se arrumar.
Era dia de festa e os convidados estavam por chegar.

-Voce esta' linda, disse a tia.

Mariana sorriu com movimentos duros. A roupa e o cabelo poderiam se
desarrumar.

Logo mais foi o tio que chamando atencao de todos perguntou:
-Mariana, voce ja' sabe o que vai ser quando crescer?

Ela balancou a cabeca em sinal positivo.

A festa parou, curiosa pra ouvir.

A mae estufou o peito.
Minha menina.

Mariana abriu o sorriso e respondeu:

-Tio Jorge, quando crescer eu vou ser...

Cangaceira!

Quem Somos Nós?


Replicante Raquel


Ele parecia calmo mas por dentro, é claro, como todos nós ele se roia. Para disfarçar, dizia: Desculpe, não quero teclar. Só venho colar mids. Naquela noite, sonolento, H48MsnCam sentiu algo mais no rastro dos bytes. Virou-se para a relação de nicks cheirando, os poros dilatados, os sentidos exaltados e lá estava ela, sob a SentinelaMS SozinhaNaNoite era esquisita. Encheu na hora os olhos dele. Ele desejou que estivesse ali a quase materialização do que há tanto tempo pedia por trás de todas as suas buscas dissimuladas nos chats, aquilo ardente que com força também rechaçava. Fechou os olhos em sonho e quando os abriu estava tonto. SozinhaNaNoite tinha desaparecido da lista. Na noite seguinte voltou para encontrá-la. De olhos fixos no nick dela, imaginou as voltas quentes que ela faria na cam, o foco da imagem mostraria uma angulação dengosa, obediente ela agarraria o mouse e se entregaria, contra o teclado afastaria um véu, do alto de sua cabeça um penacho louro se rebelaria. Carlos, rápido, pisciano, divorciado, moreno, grudou-se àquela fantasia já sem ar. Na terceira noite viu como era bela. Simples. Despojada. Ele imaginou como seria beijar devagar a sua pele. Engoliu o scotch com gula. Como ela era viva. Como brilhava. A labareda ergueu-se e o inundou. Algumas fagulhas caíram no chão, ele queimou as pontas dos dedos, depois esfregou no dorso da mão, pareceu que estava ensangüentado, ficou exausto e desligou. Procurou nos caminhos dos sonhos de que beduína caravana ela teria importado o seu exótico traje, sêxtuplas anáguas revirantes ao frêmito daquela estação. Sozinha contorcia o ventre negro misterioso. De seu umbigo jorrava um rubi.
No dia seguinte não foi trabalhar. Queria ela! Pensou nela o dia todo, procurou-a, quase contente com aquele seu penoso flagelo constante, a longa noite de insônia e aflição, dessa vez não se deteve enfim para analisar se a alegria que sentia era sagrada ou profana, pura ou pervertida, era alegria e ele gritou, chamando-a Vera. Não conseguiu tocá-la nessa cerimônia de batismo. Mas podia jurar que o que ela usava por baixo era seda.
Na quinta noite ele entrou ofegante na sala, seu coração ansiava selvagemente pelo amor. O que era aquilo que o puxava feito um imã?!! Outra vez tinha deixado de ir trabalhar. Quando a viu, afogou de novo o olhar na cintura dela e sentiu-se negligente e culpado, como poderia ser o grande empresário que queria ser, que devia ser, sabotando assim a rotina cotidiana? Deixando-se arrebatar por uma amizade recente e superficial?? Nem alguém real ela era. Estava louco. Estava muito cansado. Tinha trabalhado demais nos últimos anos, preparado muitas planilhas, sua coluna doía e a mente de tanto esforço talvez fraquejasse um pouco. Lembrou-se do pai sentado impassível à testa da empresa. Seria como ele. Tentou não ficar nervoso. SozinhaNaNoite notou que em vez de amor ele agora a temia. Para se defender puxou rápido para o outro lado todas as saias juntas mal a conexão se firmou. E de vingança deixou entrever pulsante aquela louca nesga laranja. Na sexta tarde H48 também não voltou ao escritório. Abriu pela última vez o laptop e viu como ela era tola. Estava lá. Deu graças por estar com os dias contados no chat e por não pertencer por origem àquela tribo irracional, escandalosa, despenteada. Perdida em mais adornos, saias mais compridas, longos brincos pendurados, colares entrançados que mexia a cada êxtase, H48MsnCam encarou-a friamente e não teve mais dúvidas: SozinhaNaNoite não tinha vindo nunca para o amor, mas unicamente para perdê-lo. Desmanchava-se em deleite, dançava, e quando a midi travou, ela interrompeu também o seu vaivém. H48 começou a estudá-la sério, com sofrida isenção contou de novo aquelas saias, observou que a cor de tudo era agora de uma intensa tonalidade incendiada, como se alguma característica oculta tivesse subitamente amadurecido. Isso terno lhe ardeu nos dedos, ele pensou na dureza da prova, bastante desanimado com a fraqueza da sua determinação. Como eram doces as malhas da afeição! Empertigou-se e sério concluiu: Vera é apenas uma aparição deste mundo ilusório. Uma farsa sem substância própria, um fantasma. Como aliás todos os fenômenos deste mundo virtual. Mas. Pensando bem, já que nada aqui de fato existe, então não há nada a temer! Nesse átimo de segundo H48MsnCam viu como era afortunado por saber: ele mesmo vazio de substância nenhuma! Que felicidade! Meus sentimentos então não importam, pois também não existem!
De repente viu que a imagem dela escureceu. Talvez por mágoa, quem sabe em queixa. Mas o jogo de luz e sombras também não seria uma ilusão? H48 outra vez se confundiu. Não sabia se a espiava ou se a ignorava de vez, por só se tratar de uma quimera transparente e perfumada.
Desligou o laptop, amanhã retornaria ao escritório, tinha enfim apaziguado o gume infame da paixão que o revirava inteiro desde que a vira. Na sétima noite estava mesmo convicto de que nada mais neste mundo virtual mentiroso o poderia abalar. Entrou então pela última vez para colar a midi de Rod Stewart e selar sua libertação. Por ter estado em adoração constante, por só ter vivido para dançar para ele, SozinhaNaNoite tinha exaurido o seu turbilhão interno, despojara-se de suas vestes uma por uma e ali jazia, CumpridaEnua, até que por acaso se desmanchasse.
Depois de colar oito midis, exausto H48 ponderou que talvez já pudesse virar-se e olhar para a lista sem perigo, dizer-lhe adeus sem retorno. Iria embora depressa, esqueceria toda essa loucura, e no dia seguinte retomaria a rotina do escritório. Mas ao pensar que ela estaria ali. A um palmo apenas da sua mão quente. Talvez em saias mais rodadas. Quem sabe um novo véu. Temeu perdê-la. Que algum outro internauta arrebatado ao som da próxima midi a raptasse. Ciumento se descontrolou, se sacudiu e suspirou sua paixão num grande jato que a derrubou. Abriu os olhos faminto decidido a agarrá-la, arrancá-la dali da sala, levá-la consigo só para ele. Mas onde estava ela?? SozinhaNaNoite tinha sumido. A tela tinha travado ou ela se escondia e repetia a brincadeira para provocá-lo?? O coração aos pulos H48 puxou panos, esgarçou nicks, tentando farejar pistas do que voando pudesse ter se desprendido dela. Rodeou salas, percorreu idades, então enroscada num tema inesperado numa sala de um idioma abstruso, H48 a pressentiu. Esperançoso formulou um galanteio, deparou-se mudo com uns destroços murchos. A flor do seu desespero estava morta. H48MsnCam uivou e levantou seu nick ferido da tela, tentou ressuscitá-la com lágrimas de ácida torrente, exalou sopro e beijos de saliva, inconformado com a brevidade daquela existência querida. Por que os guizos de sua amada tinham que ter sido tão reticentes??! Por que não o chamaram ao menos por escárnio para a tortura da separação? Os olhos dela emoldurados por feitiços de tição eram agora janelas pálidas cerradas para sempre, lacradas com esmero, indiferença, pó. Ela para morrer cobrira-se de uma cinza estranha, H48 tentou cobri-la um pouco que fosse, montá-la mesmo que na sombra da princesa linda que fora, para oferecer-lhe uma digna sepultura. Mas suspiros, delírios, saias de Sozinha tudo tinha sido misturado à tela enegrecida e o Sol da manhã, comovido, transformara todos os nicks numa imensa pira solidária. H48MsnCam encolhido não sabia o que fazer, não sabia mais quem era, aquele sumo escuro a lhe escorrer por dentro, como ferrugem e também por dor, ele de uma forma rubra também morria, também nascia, naquela agudeza de instinto meramente descarnado, naquele sofrimento vivo e verdadeiro.
Do Céu dos Simples, na Sala dos Rubis Naturalmente Incandescentes, o ImortalDaPedraPreta e sua amorosa amada ShaktiEscarlate olharam em chamas para outro ponto da Internet, escolhendo outra sala de chat para nela fincar num raio para o inferno e o céu de algum outro ser alguma outra noite, grávida de algum outro corcel de amor esgazeado.
.
Imagem: Kiss kiss kiss kiss........by bennystroller..Album: True Music from Budweiser.. Webshots. "Used with permission from CNET Networks, Inc., Copyright 200_. All rights reserved."

16 de out de 2006

Delírio


Bruno Accioly


- ... quem?
- Acorda, cara.
- Que horas... ?
- É cedo. Mas isso não é importante. Nem um pouco, por sinal...
- Que aconteceu?
- “Que aconteceu?”, você me pergunta? Que aconteceu? Vou te contar o que aconteceu. Acordei agora há pouco pra ir mijar, certo? Sabe daquelas minhas famosas mijadas na madrugada. Bom, tava puta sonado e fui até o banheiro no tato mesmo. Aliviei e voltei pra cama...
- E?
- Porra, espera meu. Já chego lá... então, eu tava pronto pra deitar de novo quando notei algo escuro sobre o lençol e resolvi acender a luz só pra verificar, entende? Coisa rápida. Pra desencargo de consciência. Foi aí que o drama começou. O lençol estava manchado, cara. De vermelho... bem escuro. Mas muito manchado, irmão. Eu sabia que iria soltar tinta. Que o corpo iria expelir o excesso. Mas aquilo não era excesso nem fudendo. Você tá me acompanhando? Corri pro banheiro, tirei o filme plástico – que por sinal estava sujo e opaco – e quase fiquei louco. Ou melhor, acho que fiquei louco! Só posso estar delirando. A tatuagem sumiu, cara! Toda ela.
- Como assim?
- Como assim o que? Sumiu, desapareceu, escafedeu-se. Dá pra ver nitidamente a forma do desenho, pois continua inchado, mas a tinta toda... ficou no meu lençol. Até voltei pra olhar novamente e, embora não tão larga, a mancha é profunda. Chegou ao outro lado do colchão. É tinta pra caralho.
- Você só pode estar brincando.
- Pareço estar brincando, porra? Eu ia te ligar a essa hora da manhã só pra te passar um trote? Cara, é algo sinistro, do tipo Wolverine. Sei lá. O corpo expeliu tudo. Igual o adamantium naquele episódio com o Magneto. Tá lembrado. O corpo botou toda a droga da tinta pra fora. Agüentei por três horas doloridas aquela porra de agulha me cutucando... sem falar que gastei uma nota preta. E pra que?
- Velho, isso é um absurdo. Simplesmente irreal. Fica calmo.
- Ficar calmo?
- Deve ser um sonho, irmão. Meu, ou seu. Mas deve ser um sonho.
- Sonho porra nenhuma. È bem real, por sinal.
- Cara, não pode ser verdade.
- Não pode, não é?

Fundo do Poço


Bianca Accioly


Na gota d´água mora a realidade

Sou uma molécula de água e moro no fundo de um poço na encosta da serra. Vivo aqui há alguns anos e não pretendo sair por um bom tempo. Quando decidi que iria morar no campo, planejei bem alguns séculos de minha eternidade.

Morar na cidade desgasta a gente com todo aquele movimento, chove e esquenta o tempo todo, ficamos em muitas no ar parado de tarde quente em engarrafamentos, escorremos pelas calçadas sujas até alagar a rua toda em direção aos bueiros entupidos. Quando o dia está ensolarado e as pessoas de férias, consigo seguir em alguma brisa suave ao longo do lago ao som da música que toca no parque.

O que mais me encanta em ser água é poder passear pelas coisas, fazer parte da vida, como passear por uma árvore sendo sugada do solo pela raiz, subir pelos canais da seiva bruta, ir até a ponta da folha para cruzar um raio de luz e ser jogada dentro de um fruto maduro. O fruto pode ser comido e posso assim conhecer algum animal por dentro, passear por seus pensamentos ou estar em cinemas dentro das células oculares.

Durante muito tempo fiquei presa em uma geleira na costa sul, vi o céu se transformar muitas vezes, fiquei dentro de uma garrafa de vinho perdida no fundo do oceano, em um frasco de esmalte vencido, na chapa quente de lanchonete de estrada, pirulito de criança enterrado, e muitos outros lugares. Acredito ter visto a vida de várias maneiras, ter me transformado em muitas coisas a cada tempo. Percorrendo a humanidade e seguindo meu caminho infinito.

Tudo isso mudou quando conheci uma gota que havia morado num lençol freático pelos lados de Minas. Quando soube de um lugar assim preservado, segui viagem rumo as minhas férias. Evaporei no primeiro calorão, condensei dentro de um Jeep, e fui gotejar lá perto da nascente do rio. Segui via expressa até as corredeiras e durante a noite pousei no galho da plantinha até chegar ao solo e adentrar, lentamente, seguindo o movimento da terra.

Acordei no fundo de um poço velho no quintal de uma família pequena, onde as outras moléculas são muito tranqüilas, não se preocupam com nada. A maioria já mora aqui há muito tempo, pois o clima é mais fechado, longe de tudo, tudo ali é conhecido. Um balde desce pela corda e carrega a turma lá pra cima, onde viram um monte de coisas pra manter a vida por ali, e retornam pelas paredes depois de um tempo juntando-se novamente aqui em baixo.

Quando o balde baixa, eu dou um jeito de não ir, e vou ficando aqui no fundo bem tranqüila, e pretendo ficar por aqui mais algum tempo. Já fiquei sabendo que daqui uns séculos seremos todas canalizadas. Espero não ser perturbada. Não quero ter que me juntar à outras substâncias para acabar com esses bichos que querem mandar na gente. Eu já passei por seus pensamentos e sei como funcionam, as realidades que criam...

Vida Cinza


Fê Farah


Cores fogem de nossos olhos
E eles da luz
Medo...
VIVER ASSIM É UMA OPÇÃO!
Viver assim
É
Morrer em carne.
Em osso.
Inexplicável, intocável e inesperado...
surpresa que mistura
Loucura que ameniza loucura
Borboleta caminhando
Criança trabalhando
Sorriso abraçando
Detalhe escondido
Alegria em demasia
Choro banido

O Fantasma da Psicose


Pedro Rodrigues


Eu nunca me vesti como minha mãe e matei minhas namoradas.

Ao menos não os dois assim, juntos.
Nesta ordem...

Não é este o ponto, e o ponto é este, sabe, eu tenho alguma dificuldade em manter uma direção, um raciocínio.
Um objetivo.
De manter, enfim...

O que eu queria contar a vocês é sobre o mundo colorido.
Tão bonito um mundo colorido, não é? Vocês têm um?
Pois deveriam. Eu piso as ruas cinzentas, troco palavras pardas com pessoas quase evanescidas. Todo santo cinza dia.
Não é a cidade, vocês já vão pensar. Não, andei as mais verdejantes paragens, fiz minha casa em quadros da obra espetacular. Reconheci e até percebi a magia divina da criação.
De que me serve?
Os marrecos cintilantes grasnando, as araras, os tucanos, vizinhos admiráveis.
Mas quem se admira? Tudo tão... cinza...
Me importo, tentei gostar. Fingi, menti, e quase me convenci de que achava graça.

Porque, sabem... Vou voltar ao ponto, calma, chegamos lá. Sabem, eu vejo através. Deste cinza irreal.
É só uma convenção, não é?
Você não está aí, estas palavras não estão aqui.
Eu sim.
Faz sentido, não faz? Percebem o porque do mundo colorido?
Como posso ter certeza de que todos vocês existem?
Mesmo que existam, o que me importa?
Não me encham a paciência, para que preciso das suas silenciosas vociferações apardeadas?

Me perdoem, procuro não me exaltar. Até porque, de que adianta?

Tudo tão chato, tão sem graça, tão normal.
É por isso que não me esqueço do meu mundo colorido. Lá tudo é tão... certo... As coisas fazem sentido, meus amigos são alegres e nos entendemos. Eles sabem o que penso e eu também sei, somos uma verdadeira família. Somos felizes e tudo é bom, do jeito que deve ser, a vida encontra sentido e o sofrimento, justificação.
E então não é este o real?

Eu falava, contava, mas reagiam como se não me entendessem. E eu estava falando do mundo, da vida, da alegria! Afastaram-se, sentiram pena, ficaram bravos, então não falo mais.

Eu tranquei a porta do meu mundo colorido e hoje vivo nesta pasmacera preta, branca e sépia.
Se não, me dão choques. Mas é para o meu próprio bem. O mundo colorido, a alegria é má, não se pode ver o brilho.
Eu tenho que ser como os outros, viver o mesmo seu mundo cinza. É melhor assim, eu sei que é.
Eu sei.

Por isso tranquei a porta de meu mundo colorido e escondi a chave.

Mas lembro onde ela está.

19 de set de 2006

Retroceder Nunca, Render-se Jamais


Haruki Kume


Ele: Acho que estamos quase lá, né?
Ela: E eu é que sei?
Ele: Como assim? Que eu me lembre, estamos indo para a casa da SUA amiga.
Ela: E que eu me lembre, eu disse para você pegar a entrada 38, lááááá atrás.
Ele: Olha, eu já viajei muito por essas estradas, já estive em Ilhabela várias vezes, e nunca tive que pegar nenhuma entrada 38 pra chegar lá.
Ela: Tá, então faz o seu caminho.
Ele: Amor, não precisa se irritar, estamos aqui pra curtir um fim-de-semana romântico, só nós dois, naquela casa linda à beira-mar...
Ela: Eu não tô irritada.
Ele: Ta sim.
Ela: Não tô! Que saco!
Ele: Viu?
Ela: ...
Ele: Tá bom, tá bom. Mas sério, tenho quase certeza que a gente tá chegando. Vou até abrir a janela pra você sentir a brisa do...
Ela: Fecha, fecha!!! Droga, meu cabelo! Por que você tinha que abrir essa droga de janela?!?!
Ele: Eu já disse, pra você sentir a brisa de Ilhabela...
Ela: Que Ilhabela?
Ele: Como assim? Já estamos em Ilhabela!
Ela: Já estamos em Ilhabela?
Ele: Tenho certeza!
Ela: Engraçado...
Ele: O que foi?
Ela: Eu podia jurar que a gente precisava usar uma balsa pra chegar em Ilhabela...
Ele: Será? Acho que não, na verdade...
Ela: É CLARO QUE PRECISAMOS DA BALSA!!!
Ele: Calma aí! Muita calma nessa hora! Há quanto tempo você não vai pra Ilhabela?
Ela: Sei lá, 6 meses, eu acho.
Ele: Pois é, sabe em quanto tempo é possível construir uma ponte?
Ela: Eu não to acreditando! Você não tá falando sério...
Ele: É possível, oras! Você não viu aquela ponte na Marginal? Acho que não levou nem 3 meses.
Ela: Chega. Vamos parar e perguntar onde estamos!
Ele: Pra quê?
Ela: PRA QUÊ?!?!
Ele: Olha, eu tenho uma técnica infalível pra saber onde estamos.
Ela: É?
Ele: Procura uma imobiliária.
Ela: ???
Ele: As imobiliárias do litoral sempre têm o nome da praia no próprio nome. Tipo “Imobiliária Maresias”, ou “Imobiliária Pitangueiras”.
Ela: Essa é a sua técnica infalível?
Ele: Procura aí a imobiliária. Você olha do seu lado, que eu olho do meu.
Ela: Dai-me paciência, senhor...
Ele: E aí?
Ela: Peraí, tem uma ali... Imobiliária Itamambuca...
Ele: Itamambuca não é aquela praia logo antes da praia onde fica a sua amiga?
Ela: Você quer parar? Nós não estamos em Ilhabela!!!
Ele: Eu tenho quase certeza que é Itamambuca...
Ela: Nós não vimos nenhuma BALSA!!!!
Ele: Olha, tem outra imobiliária ali...
Ela: Imobiliária... Ubatuba! Imobiliária Ubatuba!!!!
Ele: ...
Ela: E agora, hein?
Ele: ...
Ela: Ficou sem palavras né? Admite agora que errou o caminho?
Ele: Eu estava pensando...
Ela: Sim?
Ele: Por que alguém chama uma imobiliária que fica em Ilhabela de “Imobiliária Ubatuba”? Amor, o que você está... amor, não abre a porta assim, o seu cabelo e... espera, não pula, o caminh...