15 de jul de 2006

Diálogo com Psi



Ro Druhens


- Bom dia!
- Por que?
- Por que o que?
- Por que bom dia? O que tem o dia para ser bom, melhor que o anterior?
- Desculpe, é talvez o hábito..
- Não existe hábito. Você apenas repete padrões arquetípicos impregnados no inconsciente coletivo. O homem ainda engatinhava e grunhia e isto não garantia nada que melhorasse o dia
- É...tem razão
- Claro que tenho razão. E pouco me importa ter razão. Não quero ter nada, nem ser nada entre o ser e o ter a razão é manifestação do animus aprisionado em sua forma feminina e as mulheres são estrupadoras da razão...
- O senhor é psi?
- Não, sou bailarino
- E esse mau humor?
- Só quando respiro.
- Respira com muita freqüência?
- Não, sou asmático.
- Bem, então vou indo
- Não vai não, pensa que vai , esquece calcinha, quer voltar. Entendo seu sub-texto
- Realmente, não sei o que dizer...
- Você sabe mas não tem coragem. Tira o phalus do seu pai da boca e fala.
- Por favor, o senhor me ofende.
- Você quer ser ofendida. Quer apanhar na cara. Quer me dar a bunda.
- Quero! Mas o senhor precisava phalar tanto?

11 de jul de 2006

Patrícia e o Cachorrão


Bruno Accioly

Ele: ... puta merda, assim... só não pára agora... aí... aí... aíííí, Patrííícia...
Ela: Patrícia?
Ele: ... a... não, não pára, não... mas porq...
Ela: Filho de uma puta! Que merda é essa de “Patrícia”?
Ele: Quem? Mas do que droga você está falando? Olha, volta aqui bebê...
Ela: Corta essa... cê tava gemendo e soltou um: ‘aíííí, Patrííícia’!
Ele: Nem, lôca! ... eu disse: ‘aí delícia’!, e nem foi tão afeminado assim como você fez. Agora vem cá e vamos...
Ela: Delícia?? Delícia o caramba! Você disse Patrícia que eu ouvi muito bem, seu cachorro miserável. E tira essa mão de mim...
Ele: Já falei que você ta viajando. E, além do mais, eu nem conheço Patrícia alguma... (pausa) além da sua irmã...
Ela: Minha irmã??? O que você quer di... cê tá comendo a minha irmã?
Ele: Como é? Eu só... de onde você tirou essa idéia?
Ela: Você acabou de falar!
Ele: Eu não falei nada! Só disse que sua irmã é a única que conheço com esse nome!
Ela: Então!
Ele: Então? Mas eu não disse que “tava comendo a sua irmã”.
Ela: Não disse... mas é tudo muito óbvio... e você tá, né seu bosta? Eu te conheço.
Ele: Claro que não... só tenho olhos pra você.
Ela: Mas quem tá falando de “olhos”, corno desgraçado? Eu tô me referindo a essa sua “piroquinha” pendurada aí.
Ele: Piroquinha? Ah, agora é piroquinha? Dois minutos atrás era um ‘caralhão’. “Ai, vem com esse caralhão gostoso, vem meu lindo”.
Ela: Isso foi antes. Antes de você comer a minha irmã.
Ele: Mas eu já disse que não comi ninguém, amorzinho.
Ela: Amorzinho?? Amorzinho?? Que porra é um amorzinho?? Você nunca me chamou de... aaaah... volta aqui seu cachorro. É assim que você chama a vadiazinha, não é...
Ele: Me solta! Vamos conversar...
Ela: Conversar uma pinóia... essa já é a segunda hoje. Você deve achar que eu sou muito otária...
Ele: Longe de mim, linda.
Ela: E nem tente concertar...
Ele: Patrícia, escuta...
Ela: Como é?
Ele: ... merda.
Ela: Eu vou te bater muito, seu grandíssimo merda.
Ele: ... jura? Mas prometa que vai me amarrar antes.
Ela: ...
Ele: ... vai.
Ela: ... um dia eu te mato. Ah, se mato.... meu cachorrão.
Ele: Grrrrrrrrr…

Ato Falho



Replicante Raquel

Ela furou com um palito os últimos pães, desligou o forno, foi até o lavabo, desistiu. Tinha suado um pouco na cozinha mas não retocou a maquiagem. Havia uma espécie de pacto entre eles de se encontrarem sem retoques, sem edição, sem cálculos, mínimos que fossem. Ele tinha dito que gostaria de descobrir no beijo daquela noite todos os sabores que ela tivesse provado antes dele. Ela achou nojento, escatológico, vulgar, mas concordou macia, sempre cedia assim nesse tom acostumado, mesmo quando brincava daquilo, ou principalmente quando.
Resignou-se ali na fresta.
Ele nem bateu à porta, empurrou e entrou, ela saía do lavabo e a porta atingiu-a em cheio na testa, ele nem viu que ela tinha se ferido, jogou-a no chão e apertou-a sob seu corpo gordo. Bruto, deve ter me quebrado umas três costelas. Ela descobriu o quanto estava infeliz, traída e empanturrada por relatórios ocos sobre sensualidade que ela e ele a si mesmos se impingiam achando-se irreverentes. Desta vez custou, a mentira já se esvaía, tola, pífia, bolha de sabão, esfacelava a cena, ele apertou-a mais ainda contra o tapete e o garfo que ela tinha deixado cair ali da pizza da noite anterior cutucou-a um pouco, ela sentiu a pressão do súbito tridente mas não conseguiu se mexer para se desvencilhar daquilo, então como num sonho a lembrança de Brando voltou à sua mente, ao seu coração, ao seu sexo triste, Brando era terno, forte também e terno, quando os dentes do garfo finalmente conseguiram furar seu moleton sangrando-lhe as costas o nome dele emergiu sem luta da garganta rouca e aguerrido aumentou seus lábios como nenhum botox ou outro fio de ouro ou batom de mentol assim jamais faria: Brando. Mas quem é Brando??? Ela não quis explicar nem sentiu culpa, ele praguejou alto até a rua, bateu a porta do carro com estrondo e a xingou. Foi delicioso. Ela se levantou vencida pela ternura antiga da lembrança súbita. Brando. Sentou-se sob as estrelas e viriam muitas noites e a certeza muda, quando a campainha tocou ela estremeceu, demorou-se um pouco numa estratégia perfumada, esperou que ele tocasse uma segunda vez e sofresse um pouco, mas ele poderia muito bem num gesto de elegância e amor-próprio não ousar uma segunda vez e jamais voltar e ela não saberia mais viver sem ele. Faiscou na porta. Abriu-a afogueada e encontrou-o ali, sereno, rindo, levantando do chão os jornais dos últimos dias que ela não tinha recolhido, segurava uma flor vermelha enrolada num celofane muito fino e poeticamente opaco, era mais um de seus enigmas. Brando era diferente de tudo o que já tinha visto. Esta flor não pode ser deste planeta, ela falou prevendo.
Se olhavam fundo, ela tirou um cisco invisível que ele escondia no suéter, não tinham feito qualquer pacto mas tudo era solene entre eles, sempre tinha sido, como que preparado há vidas. Alguma coisa começou a pulsar, a puxar prá perto, o estômago fazendo voltas já se inventavam um ao outro naquele desejo baio e já queriam se devorar. Me espere um pouco, ela pediu. Um pouco só. Mexeu nervosa na nécessaire, esfregou a pequena lua com um pouco de pasta de dente até ficar radiante, reluzente, linda, pendurou-a de novo no umbigo, o censor do piercing apenas confirmava o que ela praticamente já sabia. Quando voltou com aquele ar seguro e viu nos olhos dele uma certeza triunfante, sabia sem nenhuma dúvida que nunca, nunca diria o nome de outro homem no ouvido dele, não, não, jamais diria, aquele ato falho era impensável.
Projetaram-se leves para além do arco, caminhavam juntos para encontrar o ogro, a coruja, o escorpião de mil pernas, o olho de Deus, qualquer perigo, todas as alegrias. Que Lua é hoje? Um na frente do outro o raio interrompeu a frase, cortou com força de foice sua vogal mais brilhante, sua primeira declaração de amor. Riram e o susto suou devagar aquela rua do planeta e o destino se fazia ardente, craquelê, imponderável. Brando abriu a porta da nave e estendeu-lhe a mão, viajariam enfim de volta para o Azul. O Azul! O Azul!
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imagem: “Papavero nell'azzurro del cielo”..by palclaud2 ..Album: Evviva! Seppur in ritardo e' arrivata anche qui la primavera. The spring has come.. .."Used with permission from CNET Networks, Inc., Copyright 200_. All rights reserved."

A Semana



Ricardo Mello


Eles estavam na cama, debaixo das cobertas, quase prontos para dormir.

- Se fosse possível o que você trocaria, o corpo ou a mente ?
- Que pergunta mais besta.
- Pensa ai', me diz, o corpo ou a mente ?
- Ah, sei lá. O corpo.
- Assim não vale, tem que afirmar.
- O corpo, já disse.
- Porque o corpo?
- Não te parece obvio?
- Não pra mim, então, porque o corpo ?
- Porque meu corpo envelheceu e minha mente ficou mais sabia.

Ela estava certa. O tempo havia lhe deixado mais serena e amadurecida.

- E você ?
- Eu o que ?
- Não se faca de tonto, agora é a sua vez, você trocaria o corpo ou a mente ?
- A mente.
- Claro que seria a mente, não esperaria outra coisa de você.
- Porque ?
- Simples, porque você dedicou muitos anos a se manter em forma e decidir pelo corpo ao invés da mente seria admitir derrota, o que convenhamos, não faz o seu estilo.
- Hmmm. Faz sentido. Mas decidi pela mente por outro motivo.
- Qual então?
- Não consigo mais aprender como antigamente. Estou com a mente cansada.
- Cansada ? Hmmmm. Como assim, me da' um exemplo ? Ela sempre pedia exemplos e ele resolveu ironizar:
- Putz.. tem certeza que trocar o cérebro não seria melhor pra você ?

Ela simulou um chute debaixo dos lençóis, desses de mentirinha, só pra fazê-lo rir.

- Eu quero um exemplo !
- Tá bom. Olha, era uma vez um menininho muito inteligente que vivia ...
- Para de me sacanear, criancinha é a sua vó!
- Mas eu to dando um exemplo!
- Tá nada, ta' me sacaneando como seu tivesse 2 anos e você sempre faz isso pra me irritar.
- Eu heim, que reação mas abrupta, parece mesmo uma criancinha de 2 anos.

Um silêncio pairou no ar, tenso.

Ele sabia que o próximo ato seria decisivo:

- Se virasse de costas e ficasse indiferente, eles ficariam de mal por mais ou menos uma semana.
- Se ficasse indiferente mas seu corpo buscasse o dela com toques aqui e ali, a briga duraria no máximo 2 dias.
- Se desse um beijo de boa noite dizendo que a amava mesmo com as briguinhas e chegasse perto do corpo dela pra fazer conchinha, ai' poderiam ate' fazer amor em questão de minutos.

A vida de casal tem nuanças impressionantes.

Decidiu dar um beijo mas foi surpreendido. Ela, mais rápida, virou de costas totalmente indiferente.

A semana, ia ser dura.

10 de jul de 2006

Ato fálico...falho! Ato falho



Ben Iamin


- Amor, abra essa porta...
- Não!
- Você me entendeu errado!
- Eu ouvi muito bem o quê você disse!
- Amor...
- E não me chame mais de amor, tá ouvindo? Nunca mais!
- Pelo menos abra a porta!
- Não abro merda de porta nenhuma! A partir de hoje todas as portas dessa casa vão estar fechadas pra você, seu insensível machista aproveitador!
- Seu o quê?
- Insensível, machista, aproveitador...
-Ah....
- ...e surdo!
- Lourdes, abra essa porta agora!
- Ah, cretino, já sou Lourdes? Já sabe meu nome? Não sou mais Rosário não? Hein? Nem Fátima? Nem...nem qualquer outro santuário da Virgem? Seu...seu herege!
- Lourdes...
- Não!
- Mas eu nem...
- Não! Qualquer que seja a pergunta, a resposta pra você a partir de agora vai ser sempre não!
- Lourdes, deixe de bobagem e venha comer...O almoço vai esfriar.
- Não quero saber. A gente não tem mais porquê almoçar juntos. Você nem sabe quem sou eu!
- Lourdes, deixe de drama e venha comer!
- Ah, repetindo o meu nome pra ver se decora, né?
- Não, Lourdes...Quer dizer... amor!
- Não me chame de amor!
- Lourdes!
- E pare de falar meu nome, Alfredo!
- Como é?
-Pare de falar meu nome!
- Eu não me chamo Alfredo...
(silêncio)
- E não mude de assunto!