18 de out de 2006

Tv por Assinatura


Ricardo Mello


Passou a tarde vendo televisao.

No auge dos seus 11 anos os canais em ingles e os desenhos pareciam chatos.

Escolheu o canal de filmes nacionais.

Ao final da tarde a mae gritou que ja' era hora de se arrumar.
Era dia de festa e os convidados estavam por chegar.

-Voce esta' linda, disse a tia.

Mariana sorriu com movimentos duros. A roupa e o cabelo poderiam se
desarrumar.

Logo mais foi o tio que chamando atencao de todos perguntou:
-Mariana, voce ja' sabe o que vai ser quando crescer?

Ela balancou a cabeca em sinal positivo.

A festa parou, curiosa pra ouvir.

A mae estufou o peito.
Minha menina.

Mariana abriu o sorriso e respondeu:

-Tio Jorge, quando crescer eu vou ser...

Cangaceira!

Quem Somos Nós?


Replicante Raquel


Ele parecia calmo mas por dentro, é claro, como todos nós ele se roia. Para disfarçar, dizia: Desculpe, não quero teclar. Só venho colar mids. Naquela noite, sonolento, H48MsnCam sentiu algo mais no rastro dos bytes. Virou-se para a relação de nicks cheirando, os poros dilatados, os sentidos exaltados e lá estava ela, sob a SentinelaMS SozinhaNaNoite era esquisita. Encheu na hora os olhos dele. Ele desejou que estivesse ali a quase materialização do que há tanto tempo pedia por trás de todas as suas buscas dissimuladas nos chats, aquilo ardente que com força também rechaçava. Fechou os olhos em sonho e quando os abriu estava tonto. SozinhaNaNoite tinha desaparecido da lista. Na noite seguinte voltou para encontrá-la. De olhos fixos no nick dela, imaginou as voltas quentes que ela faria na cam, o foco da imagem mostraria uma angulação dengosa, obediente ela agarraria o mouse e se entregaria, contra o teclado afastaria um véu, do alto de sua cabeça um penacho louro se rebelaria. Carlos, rápido, pisciano, divorciado, moreno, grudou-se àquela fantasia já sem ar. Na terceira noite viu como era bela. Simples. Despojada. Ele imaginou como seria beijar devagar a sua pele. Engoliu o scotch com gula. Como ela era viva. Como brilhava. A labareda ergueu-se e o inundou. Algumas fagulhas caíram no chão, ele queimou as pontas dos dedos, depois esfregou no dorso da mão, pareceu que estava ensangüentado, ficou exausto e desligou. Procurou nos caminhos dos sonhos de que beduína caravana ela teria importado o seu exótico traje, sêxtuplas anáguas revirantes ao frêmito daquela estação. Sozinha contorcia o ventre negro misterioso. De seu umbigo jorrava um rubi.
No dia seguinte não foi trabalhar. Queria ela! Pensou nela o dia todo, procurou-a, quase contente com aquele seu penoso flagelo constante, a longa noite de insônia e aflição, dessa vez não se deteve enfim para analisar se a alegria que sentia era sagrada ou profana, pura ou pervertida, era alegria e ele gritou, chamando-a Vera. Não conseguiu tocá-la nessa cerimônia de batismo. Mas podia jurar que o que ela usava por baixo era seda.
Na quinta noite ele entrou ofegante na sala, seu coração ansiava selvagemente pelo amor. O que era aquilo que o puxava feito um imã?!! Outra vez tinha deixado de ir trabalhar. Quando a viu, afogou de novo o olhar na cintura dela e sentiu-se negligente e culpado, como poderia ser o grande empresário que queria ser, que devia ser, sabotando assim a rotina cotidiana? Deixando-se arrebatar por uma amizade recente e superficial?? Nem alguém real ela era. Estava louco. Estava muito cansado. Tinha trabalhado demais nos últimos anos, preparado muitas planilhas, sua coluna doía e a mente de tanto esforço talvez fraquejasse um pouco. Lembrou-se do pai sentado impassível à testa da empresa. Seria como ele. Tentou não ficar nervoso. SozinhaNaNoite notou que em vez de amor ele agora a temia. Para se defender puxou rápido para o outro lado todas as saias juntas mal a conexão se firmou. E de vingança deixou entrever pulsante aquela louca nesga laranja. Na sexta tarde H48 também não voltou ao escritório. Abriu pela última vez o laptop e viu como ela era tola. Estava lá. Deu graças por estar com os dias contados no chat e por não pertencer por origem àquela tribo irracional, escandalosa, despenteada. Perdida em mais adornos, saias mais compridas, longos brincos pendurados, colares entrançados que mexia a cada êxtase, H48MsnCam encarou-a friamente e não teve mais dúvidas: SozinhaNaNoite não tinha vindo nunca para o amor, mas unicamente para perdê-lo. Desmanchava-se em deleite, dançava, e quando a midi travou, ela interrompeu também o seu vaivém. H48 começou a estudá-la sério, com sofrida isenção contou de novo aquelas saias, observou que a cor de tudo era agora de uma intensa tonalidade incendiada, como se alguma característica oculta tivesse subitamente amadurecido. Isso terno lhe ardeu nos dedos, ele pensou na dureza da prova, bastante desanimado com a fraqueza da sua determinação. Como eram doces as malhas da afeição! Empertigou-se e sério concluiu: Vera é apenas uma aparição deste mundo ilusório. Uma farsa sem substância própria, um fantasma. Como aliás todos os fenômenos deste mundo virtual. Mas. Pensando bem, já que nada aqui de fato existe, então não há nada a temer! Nesse átimo de segundo H48MsnCam viu como era afortunado por saber: ele mesmo vazio de substância nenhuma! Que felicidade! Meus sentimentos então não importam, pois também não existem!
De repente viu que a imagem dela escureceu. Talvez por mágoa, quem sabe em queixa. Mas o jogo de luz e sombras também não seria uma ilusão? H48 outra vez se confundiu. Não sabia se a espiava ou se a ignorava de vez, por só se tratar de uma quimera transparente e perfumada.
Desligou o laptop, amanhã retornaria ao escritório, tinha enfim apaziguado o gume infame da paixão que o revirava inteiro desde que a vira. Na sétima noite estava mesmo convicto de que nada mais neste mundo virtual mentiroso o poderia abalar. Entrou então pela última vez para colar a midi de Rod Stewart e selar sua libertação. Por ter estado em adoração constante, por só ter vivido para dançar para ele, SozinhaNaNoite tinha exaurido o seu turbilhão interno, despojara-se de suas vestes uma por uma e ali jazia, CumpridaEnua, até que por acaso se desmanchasse.
Depois de colar oito midis, exausto H48 ponderou que talvez já pudesse virar-se e olhar para a lista sem perigo, dizer-lhe adeus sem retorno. Iria embora depressa, esqueceria toda essa loucura, e no dia seguinte retomaria a rotina do escritório. Mas ao pensar que ela estaria ali. A um palmo apenas da sua mão quente. Talvez em saias mais rodadas. Quem sabe um novo véu. Temeu perdê-la. Que algum outro internauta arrebatado ao som da próxima midi a raptasse. Ciumento se descontrolou, se sacudiu e suspirou sua paixão num grande jato que a derrubou. Abriu os olhos faminto decidido a agarrá-la, arrancá-la dali da sala, levá-la consigo só para ele. Mas onde estava ela?? SozinhaNaNoite tinha sumido. A tela tinha travado ou ela se escondia e repetia a brincadeira para provocá-lo?? O coração aos pulos H48 puxou panos, esgarçou nicks, tentando farejar pistas do que voando pudesse ter se desprendido dela. Rodeou salas, percorreu idades, então enroscada num tema inesperado numa sala de um idioma abstruso, H48 a pressentiu. Esperançoso formulou um galanteio, deparou-se mudo com uns destroços murchos. A flor do seu desespero estava morta. H48MsnCam uivou e levantou seu nick ferido da tela, tentou ressuscitá-la com lágrimas de ácida torrente, exalou sopro e beijos de saliva, inconformado com a brevidade daquela existência querida. Por que os guizos de sua amada tinham que ter sido tão reticentes??! Por que não o chamaram ao menos por escárnio para a tortura da separação? Os olhos dela emoldurados por feitiços de tição eram agora janelas pálidas cerradas para sempre, lacradas com esmero, indiferença, pó. Ela para morrer cobrira-se de uma cinza estranha, H48 tentou cobri-la um pouco que fosse, montá-la mesmo que na sombra da princesa linda que fora, para oferecer-lhe uma digna sepultura. Mas suspiros, delírios, saias de Sozinha tudo tinha sido misturado à tela enegrecida e o Sol da manhã, comovido, transformara todos os nicks numa imensa pira solidária. H48MsnCam encolhido não sabia o que fazer, não sabia mais quem era, aquele sumo escuro a lhe escorrer por dentro, como ferrugem e também por dor, ele de uma forma rubra também morria, também nascia, naquela agudeza de instinto meramente descarnado, naquele sofrimento vivo e verdadeiro.
Do Céu dos Simples, na Sala dos Rubis Naturalmente Incandescentes, o ImortalDaPedraPreta e sua amorosa amada ShaktiEscarlate olharam em chamas para outro ponto da Internet, escolhendo outra sala de chat para nela fincar num raio para o inferno e o céu de algum outro ser alguma outra noite, grávida de algum outro corcel de amor esgazeado.
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Imagem: Kiss kiss kiss kiss........by bennystroller..Album: True Music from Budweiser.. Webshots. "Used with permission from CNET Networks, Inc., Copyright 200_. All rights reserved."

16 de out de 2006

Delírio


Bruno Accioly


- ... quem?
- Acorda, cara.
- Que horas... ?
- É cedo. Mas isso não é importante. Nem um pouco, por sinal...
- Que aconteceu?
- “Que aconteceu?”, você me pergunta? Que aconteceu? Vou te contar o que aconteceu. Acordei agora há pouco pra ir mijar, certo? Sabe daquelas minhas famosas mijadas na madrugada. Bom, tava puta sonado e fui até o banheiro no tato mesmo. Aliviei e voltei pra cama...
- E?
- Porra, espera meu. Já chego lá... então, eu tava pronto pra deitar de novo quando notei algo escuro sobre o lençol e resolvi acender a luz só pra verificar, entende? Coisa rápida. Pra desencargo de consciência. Foi aí que o drama começou. O lençol estava manchado, cara. De vermelho... bem escuro. Mas muito manchado, irmão. Eu sabia que iria soltar tinta. Que o corpo iria expelir o excesso. Mas aquilo não era excesso nem fudendo. Você tá me acompanhando? Corri pro banheiro, tirei o filme plástico – que por sinal estava sujo e opaco – e quase fiquei louco. Ou melhor, acho que fiquei louco! Só posso estar delirando. A tatuagem sumiu, cara! Toda ela.
- Como assim?
- Como assim o que? Sumiu, desapareceu, escafedeu-se. Dá pra ver nitidamente a forma do desenho, pois continua inchado, mas a tinta toda... ficou no meu lençol. Até voltei pra olhar novamente e, embora não tão larga, a mancha é profunda. Chegou ao outro lado do colchão. É tinta pra caralho.
- Você só pode estar brincando.
- Pareço estar brincando, porra? Eu ia te ligar a essa hora da manhã só pra te passar um trote? Cara, é algo sinistro, do tipo Wolverine. Sei lá. O corpo expeliu tudo. Igual o adamantium naquele episódio com o Magneto. Tá lembrado. O corpo botou toda a droga da tinta pra fora. Agüentei por três horas doloridas aquela porra de agulha me cutucando... sem falar que gastei uma nota preta. E pra que?
- Velho, isso é um absurdo. Simplesmente irreal. Fica calmo.
- Ficar calmo?
- Deve ser um sonho, irmão. Meu, ou seu. Mas deve ser um sonho.
- Sonho porra nenhuma. È bem real, por sinal.
- Cara, não pode ser verdade.
- Não pode, não é?

Fundo do Poço


Bianca Accioly


Na gota d´água mora a realidade

Sou uma molécula de água e moro no fundo de um poço na encosta da serra. Vivo aqui há alguns anos e não pretendo sair por um bom tempo. Quando decidi que iria morar no campo, planejei bem alguns séculos de minha eternidade.

Morar na cidade desgasta a gente com todo aquele movimento, chove e esquenta o tempo todo, ficamos em muitas no ar parado de tarde quente em engarrafamentos, escorremos pelas calçadas sujas até alagar a rua toda em direção aos bueiros entupidos. Quando o dia está ensolarado e as pessoas de férias, consigo seguir em alguma brisa suave ao longo do lago ao som da música que toca no parque.

O que mais me encanta em ser água é poder passear pelas coisas, fazer parte da vida, como passear por uma árvore sendo sugada do solo pela raiz, subir pelos canais da seiva bruta, ir até a ponta da folha para cruzar um raio de luz e ser jogada dentro de um fruto maduro. O fruto pode ser comido e posso assim conhecer algum animal por dentro, passear por seus pensamentos ou estar em cinemas dentro das células oculares.

Durante muito tempo fiquei presa em uma geleira na costa sul, vi o céu se transformar muitas vezes, fiquei dentro de uma garrafa de vinho perdida no fundo do oceano, em um frasco de esmalte vencido, na chapa quente de lanchonete de estrada, pirulito de criança enterrado, e muitos outros lugares. Acredito ter visto a vida de várias maneiras, ter me transformado em muitas coisas a cada tempo. Percorrendo a humanidade e seguindo meu caminho infinito.

Tudo isso mudou quando conheci uma gota que havia morado num lençol freático pelos lados de Minas. Quando soube de um lugar assim preservado, segui viagem rumo as minhas férias. Evaporei no primeiro calorão, condensei dentro de um Jeep, e fui gotejar lá perto da nascente do rio. Segui via expressa até as corredeiras e durante a noite pousei no galho da plantinha até chegar ao solo e adentrar, lentamente, seguindo o movimento da terra.

Acordei no fundo de um poço velho no quintal de uma família pequena, onde as outras moléculas são muito tranqüilas, não se preocupam com nada. A maioria já mora aqui há muito tempo, pois o clima é mais fechado, longe de tudo, tudo ali é conhecido. Um balde desce pela corda e carrega a turma lá pra cima, onde viram um monte de coisas pra manter a vida por ali, e retornam pelas paredes depois de um tempo juntando-se novamente aqui em baixo.

Quando o balde baixa, eu dou um jeito de não ir, e vou ficando aqui no fundo bem tranqüila, e pretendo ficar por aqui mais algum tempo. Já fiquei sabendo que daqui uns séculos seremos todas canalizadas. Espero não ser perturbada. Não quero ter que me juntar à outras substâncias para acabar com esses bichos que querem mandar na gente. Eu já passei por seus pensamentos e sei como funcionam, as realidades que criam...

Vida Cinza


Fê Farah


Cores fogem de nossos olhos
E eles da luz
Medo...
VIVER ASSIM É UMA OPÇÃO!
Viver assim
É
Morrer em carne.
Em osso.
Inexplicável, intocável e inesperado...
surpresa que mistura
Loucura que ameniza loucura
Borboleta caminhando
Criança trabalhando
Sorriso abraçando
Detalhe escondido
Alegria em demasia
Choro banido

O Fantasma da Psicose


Pedro Rodrigues


Eu nunca me vesti como minha mãe e matei minhas namoradas.

Ao menos não os dois assim, juntos.
Nesta ordem...

Não é este o ponto, e o ponto é este, sabe, eu tenho alguma dificuldade em manter uma direção, um raciocínio.
Um objetivo.
De manter, enfim...

O que eu queria contar a vocês é sobre o mundo colorido.
Tão bonito um mundo colorido, não é? Vocês têm um?
Pois deveriam. Eu piso as ruas cinzentas, troco palavras pardas com pessoas quase evanescidas. Todo santo cinza dia.
Não é a cidade, vocês já vão pensar. Não, andei as mais verdejantes paragens, fiz minha casa em quadros da obra espetacular. Reconheci e até percebi a magia divina da criação.
De que me serve?
Os marrecos cintilantes grasnando, as araras, os tucanos, vizinhos admiráveis.
Mas quem se admira? Tudo tão... cinza...
Me importo, tentei gostar. Fingi, menti, e quase me convenci de que achava graça.

Porque, sabem... Vou voltar ao ponto, calma, chegamos lá. Sabem, eu vejo através. Deste cinza irreal.
É só uma convenção, não é?
Você não está aí, estas palavras não estão aqui.
Eu sim.
Faz sentido, não faz? Percebem o porque do mundo colorido?
Como posso ter certeza de que todos vocês existem?
Mesmo que existam, o que me importa?
Não me encham a paciência, para que preciso das suas silenciosas vociferações apardeadas?

Me perdoem, procuro não me exaltar. Até porque, de que adianta?

Tudo tão chato, tão sem graça, tão normal.
É por isso que não me esqueço do meu mundo colorido. Lá tudo é tão... certo... As coisas fazem sentido, meus amigos são alegres e nos entendemos. Eles sabem o que penso e eu também sei, somos uma verdadeira família. Somos felizes e tudo é bom, do jeito que deve ser, a vida encontra sentido e o sofrimento, justificação.
E então não é este o real?

Eu falava, contava, mas reagiam como se não me entendessem. E eu estava falando do mundo, da vida, da alegria! Afastaram-se, sentiram pena, ficaram bravos, então não falo mais.

Eu tranquei a porta do meu mundo colorido e hoje vivo nesta pasmacera preta, branca e sépia.
Se não, me dão choques. Mas é para o meu próprio bem. O mundo colorido, a alegria é má, não se pode ver o brilho.
Eu tenho que ser como os outros, viver o mesmo seu mundo cinza. É melhor assim, eu sei que é.
Eu sei.

Por isso tranquei a porta de meu mundo colorido e escondi a chave.

Mas lembro onde ela está.