16 de out de 2006

O Fantasma da Psicose


Pedro Rodrigues


Eu nunca me vesti como minha mãe e matei minhas namoradas.

Ao menos não os dois assim, juntos.
Nesta ordem...

Não é este o ponto, e o ponto é este, sabe, eu tenho alguma dificuldade em manter uma direção, um raciocínio.
Um objetivo.
De manter, enfim...

O que eu queria contar a vocês é sobre o mundo colorido.
Tão bonito um mundo colorido, não é? Vocês têm um?
Pois deveriam. Eu piso as ruas cinzentas, troco palavras pardas com pessoas quase evanescidas. Todo santo cinza dia.
Não é a cidade, vocês já vão pensar. Não, andei as mais verdejantes paragens, fiz minha casa em quadros da obra espetacular. Reconheci e até percebi a magia divina da criação.
De que me serve?
Os marrecos cintilantes grasnando, as araras, os tucanos, vizinhos admiráveis.
Mas quem se admira? Tudo tão... cinza...
Me importo, tentei gostar. Fingi, menti, e quase me convenci de que achava graça.

Porque, sabem... Vou voltar ao ponto, calma, chegamos lá. Sabem, eu vejo através. Deste cinza irreal.
É só uma convenção, não é?
Você não está aí, estas palavras não estão aqui.
Eu sim.
Faz sentido, não faz? Percebem o porque do mundo colorido?
Como posso ter certeza de que todos vocês existem?
Mesmo que existam, o que me importa?
Não me encham a paciência, para que preciso das suas silenciosas vociferações apardeadas?

Me perdoem, procuro não me exaltar. Até porque, de que adianta?

Tudo tão chato, tão sem graça, tão normal.
É por isso que não me esqueço do meu mundo colorido. Lá tudo é tão... certo... As coisas fazem sentido, meus amigos são alegres e nos entendemos. Eles sabem o que penso e eu também sei, somos uma verdadeira família. Somos felizes e tudo é bom, do jeito que deve ser, a vida encontra sentido e o sofrimento, justificação.
E então não é este o real?

Eu falava, contava, mas reagiam como se não me entendessem. E eu estava falando do mundo, da vida, da alegria! Afastaram-se, sentiram pena, ficaram bravos, então não falo mais.

Eu tranquei a porta do meu mundo colorido e hoje vivo nesta pasmacera preta, branca e sépia.
Se não, me dão choques. Mas é para o meu próprio bem. O mundo colorido, a alegria é má, não se pode ver o brilho.
Eu tenho que ser como os outros, viver o mesmo seu mundo cinza. É melhor assim, eu sei que é.
Eu sei.

Por isso tranquei a porta de meu mundo colorido e escondi a chave.

Mas lembro onde ela está.

2 comentários:

b. disse...

intenso pedrao. adorei...
surreal.
b.

bia disse...

adorei o "todo santo cinza dia"
acho que ser paulistano nos coloca nessa situação tbm

e a gente acha tão normal...

adorei o texto