18 de out de 2006

Quem Somos Nós?


Replicante Raquel


Ele parecia calmo mas por dentro, é claro, como todos nós ele se roia. Para disfarçar, dizia: Desculpe, não quero teclar. Só venho colar mids. Naquela noite, sonolento, H48MsnCam sentiu algo mais no rastro dos bytes. Virou-se para a relação de nicks cheirando, os poros dilatados, os sentidos exaltados e lá estava ela, sob a SentinelaMS SozinhaNaNoite era esquisita. Encheu na hora os olhos dele. Ele desejou que estivesse ali a quase materialização do que há tanto tempo pedia por trás de todas as suas buscas dissimuladas nos chats, aquilo ardente que com força também rechaçava. Fechou os olhos em sonho e quando os abriu estava tonto. SozinhaNaNoite tinha desaparecido da lista. Na noite seguinte voltou para encontrá-la. De olhos fixos no nick dela, imaginou as voltas quentes que ela faria na cam, o foco da imagem mostraria uma angulação dengosa, obediente ela agarraria o mouse e se entregaria, contra o teclado afastaria um véu, do alto de sua cabeça um penacho louro se rebelaria. Carlos, rápido, pisciano, divorciado, moreno, grudou-se àquela fantasia já sem ar. Na terceira noite viu como era bela. Simples. Despojada. Ele imaginou como seria beijar devagar a sua pele. Engoliu o scotch com gula. Como ela era viva. Como brilhava. A labareda ergueu-se e o inundou. Algumas fagulhas caíram no chão, ele queimou as pontas dos dedos, depois esfregou no dorso da mão, pareceu que estava ensangüentado, ficou exausto e desligou. Procurou nos caminhos dos sonhos de que beduína caravana ela teria importado o seu exótico traje, sêxtuplas anáguas revirantes ao frêmito daquela estação. Sozinha contorcia o ventre negro misterioso. De seu umbigo jorrava um rubi.
No dia seguinte não foi trabalhar. Queria ela! Pensou nela o dia todo, procurou-a, quase contente com aquele seu penoso flagelo constante, a longa noite de insônia e aflição, dessa vez não se deteve enfim para analisar se a alegria que sentia era sagrada ou profana, pura ou pervertida, era alegria e ele gritou, chamando-a Vera. Não conseguiu tocá-la nessa cerimônia de batismo. Mas podia jurar que o que ela usava por baixo era seda.
Na quinta noite ele entrou ofegante na sala, seu coração ansiava selvagemente pelo amor. O que era aquilo que o puxava feito um imã?!! Outra vez tinha deixado de ir trabalhar. Quando a viu, afogou de novo o olhar na cintura dela e sentiu-se negligente e culpado, como poderia ser o grande empresário que queria ser, que devia ser, sabotando assim a rotina cotidiana? Deixando-se arrebatar por uma amizade recente e superficial?? Nem alguém real ela era. Estava louco. Estava muito cansado. Tinha trabalhado demais nos últimos anos, preparado muitas planilhas, sua coluna doía e a mente de tanto esforço talvez fraquejasse um pouco. Lembrou-se do pai sentado impassível à testa da empresa. Seria como ele. Tentou não ficar nervoso. SozinhaNaNoite notou que em vez de amor ele agora a temia. Para se defender puxou rápido para o outro lado todas as saias juntas mal a conexão se firmou. E de vingança deixou entrever pulsante aquela louca nesga laranja. Na sexta tarde H48 também não voltou ao escritório. Abriu pela última vez o laptop e viu como ela era tola. Estava lá. Deu graças por estar com os dias contados no chat e por não pertencer por origem àquela tribo irracional, escandalosa, despenteada. Perdida em mais adornos, saias mais compridas, longos brincos pendurados, colares entrançados que mexia a cada êxtase, H48MsnCam encarou-a friamente e não teve mais dúvidas: SozinhaNaNoite não tinha vindo nunca para o amor, mas unicamente para perdê-lo. Desmanchava-se em deleite, dançava, e quando a midi travou, ela interrompeu também o seu vaivém. H48 começou a estudá-la sério, com sofrida isenção contou de novo aquelas saias, observou que a cor de tudo era agora de uma intensa tonalidade incendiada, como se alguma característica oculta tivesse subitamente amadurecido. Isso terno lhe ardeu nos dedos, ele pensou na dureza da prova, bastante desanimado com a fraqueza da sua determinação. Como eram doces as malhas da afeição! Empertigou-se e sério concluiu: Vera é apenas uma aparição deste mundo ilusório. Uma farsa sem substância própria, um fantasma. Como aliás todos os fenômenos deste mundo virtual. Mas. Pensando bem, já que nada aqui de fato existe, então não há nada a temer! Nesse átimo de segundo H48MsnCam viu como era afortunado por saber: ele mesmo vazio de substância nenhuma! Que felicidade! Meus sentimentos então não importam, pois também não existem!
De repente viu que a imagem dela escureceu. Talvez por mágoa, quem sabe em queixa. Mas o jogo de luz e sombras também não seria uma ilusão? H48 outra vez se confundiu. Não sabia se a espiava ou se a ignorava de vez, por só se tratar de uma quimera transparente e perfumada.
Desligou o laptop, amanhã retornaria ao escritório, tinha enfim apaziguado o gume infame da paixão que o revirava inteiro desde que a vira. Na sétima noite estava mesmo convicto de que nada mais neste mundo virtual mentiroso o poderia abalar. Entrou então pela última vez para colar a midi de Rod Stewart e selar sua libertação. Por ter estado em adoração constante, por só ter vivido para dançar para ele, SozinhaNaNoite tinha exaurido o seu turbilhão interno, despojara-se de suas vestes uma por uma e ali jazia, CumpridaEnua, até que por acaso se desmanchasse.
Depois de colar oito midis, exausto H48 ponderou que talvez já pudesse virar-se e olhar para a lista sem perigo, dizer-lhe adeus sem retorno. Iria embora depressa, esqueceria toda essa loucura, e no dia seguinte retomaria a rotina do escritório. Mas ao pensar que ela estaria ali. A um palmo apenas da sua mão quente. Talvez em saias mais rodadas. Quem sabe um novo véu. Temeu perdê-la. Que algum outro internauta arrebatado ao som da próxima midi a raptasse. Ciumento se descontrolou, se sacudiu e suspirou sua paixão num grande jato que a derrubou. Abriu os olhos faminto decidido a agarrá-la, arrancá-la dali da sala, levá-la consigo só para ele. Mas onde estava ela?? SozinhaNaNoite tinha sumido. A tela tinha travado ou ela se escondia e repetia a brincadeira para provocá-lo?? O coração aos pulos H48 puxou panos, esgarçou nicks, tentando farejar pistas do que voando pudesse ter se desprendido dela. Rodeou salas, percorreu idades, então enroscada num tema inesperado numa sala de um idioma abstruso, H48 a pressentiu. Esperançoso formulou um galanteio, deparou-se mudo com uns destroços murchos. A flor do seu desespero estava morta. H48MsnCam uivou e levantou seu nick ferido da tela, tentou ressuscitá-la com lágrimas de ácida torrente, exalou sopro e beijos de saliva, inconformado com a brevidade daquela existência querida. Por que os guizos de sua amada tinham que ter sido tão reticentes??! Por que não o chamaram ao menos por escárnio para a tortura da separação? Os olhos dela emoldurados por feitiços de tição eram agora janelas pálidas cerradas para sempre, lacradas com esmero, indiferença, pó. Ela para morrer cobrira-se de uma cinza estranha, H48 tentou cobri-la um pouco que fosse, montá-la mesmo que na sombra da princesa linda que fora, para oferecer-lhe uma digna sepultura. Mas suspiros, delírios, saias de Sozinha tudo tinha sido misturado à tela enegrecida e o Sol da manhã, comovido, transformara todos os nicks numa imensa pira solidária. H48MsnCam encolhido não sabia o que fazer, não sabia mais quem era, aquele sumo escuro a lhe escorrer por dentro, como ferrugem e também por dor, ele de uma forma rubra também morria, também nascia, naquela agudeza de instinto meramente descarnado, naquele sofrimento vivo e verdadeiro.
Do Céu dos Simples, na Sala dos Rubis Naturalmente Incandescentes, o ImortalDaPedraPreta e sua amorosa amada ShaktiEscarlate olharam em chamas para outro ponto da Internet, escolhendo outra sala de chat para nela fincar num raio para o inferno e o céu de algum outro ser alguma outra noite, grávida de algum outro corcel de amor esgazeado.
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Imagem: Kiss kiss kiss kiss........by bennystroller..Album: True Music from Budweiser.. Webshots. "Used with permission from CNET Networks, Inc., Copyright 200_. All rights reserved."

Um comentário:

b. disse...

tao real quanto poderia...
e afinal, para o amor, nao existem barreiras.
muito menos tecnologicas.