16 de out de 2006

Fundo do Poço


Bianca Accioly


Na gota d´água mora a realidade

Sou uma molécula de água e moro no fundo de um poço na encosta da serra. Vivo aqui há alguns anos e não pretendo sair por um bom tempo. Quando decidi que iria morar no campo, planejei bem alguns séculos de minha eternidade.

Morar na cidade desgasta a gente com todo aquele movimento, chove e esquenta o tempo todo, ficamos em muitas no ar parado de tarde quente em engarrafamentos, escorremos pelas calçadas sujas até alagar a rua toda em direção aos bueiros entupidos. Quando o dia está ensolarado e as pessoas de férias, consigo seguir em alguma brisa suave ao longo do lago ao som da música que toca no parque.

O que mais me encanta em ser água é poder passear pelas coisas, fazer parte da vida, como passear por uma árvore sendo sugada do solo pela raiz, subir pelos canais da seiva bruta, ir até a ponta da folha para cruzar um raio de luz e ser jogada dentro de um fruto maduro. O fruto pode ser comido e posso assim conhecer algum animal por dentro, passear por seus pensamentos ou estar em cinemas dentro das células oculares.

Durante muito tempo fiquei presa em uma geleira na costa sul, vi o céu se transformar muitas vezes, fiquei dentro de uma garrafa de vinho perdida no fundo do oceano, em um frasco de esmalte vencido, na chapa quente de lanchonete de estrada, pirulito de criança enterrado, e muitos outros lugares. Acredito ter visto a vida de várias maneiras, ter me transformado em muitas coisas a cada tempo. Percorrendo a humanidade e seguindo meu caminho infinito.

Tudo isso mudou quando conheci uma gota que havia morado num lençol freático pelos lados de Minas. Quando soube de um lugar assim preservado, segui viagem rumo as minhas férias. Evaporei no primeiro calorão, condensei dentro de um Jeep, e fui gotejar lá perto da nascente do rio. Segui via expressa até as corredeiras e durante a noite pousei no galho da plantinha até chegar ao solo e adentrar, lentamente, seguindo o movimento da terra.

Acordei no fundo de um poço velho no quintal de uma família pequena, onde as outras moléculas são muito tranqüilas, não se preocupam com nada. A maioria já mora aqui há muito tempo, pois o clima é mais fechado, longe de tudo, tudo ali é conhecido. Um balde desce pela corda e carrega a turma lá pra cima, onde viram um monte de coisas pra manter a vida por ali, e retornam pelas paredes depois de um tempo juntando-se novamente aqui em baixo.

Quando o balde baixa, eu dou um jeito de não ir, e vou ficando aqui no fundo bem tranqüila, e pretendo ficar por aqui mais algum tempo. Já fiquei sabendo que daqui uns séculos seremos todas canalizadas. Espero não ser perturbada. Não quero ter que me juntar à outras substâncias para acabar com esses bichos que querem mandar na gente. Eu já passei por seus pensamentos e sei como funcionam, as realidades que criam...

2 comentários:

b. disse...

adorei bi.
uma gota d'agua??
pirado.
lindo.

Ricardo Mello - Duoba disse...

Ai que riso bom eu tive durante o texto todo. Ta' genial. Se a gota cansar de la' manda ela pra piri !!!! :) bom mas bom demais... que texto lindo...